“Xinga, Tonho Véio!”

Publicado em 05/06/2009

0


Portuguesa do Vale 008

Técnico heptacampeão da Liga de Futebol das Muriçocas amarga derrotas consecutivas na direção do time que fundou há 10 anos
Texto e fotos: Tom Correia

A tarde é de sábado, o tempo é de chuva. Operários buscam abrigo nos tratores estacionados à beira do campo de São Brás, limite entre o bairro da Federação e o Vale das Muriçocas, periferia de Salvador. A prefeitura está recapeando a pista da Avenida Sérgio de Carvalho, que atravessa toda a comunidade, embutida numa baixada que começa na Vasco da Gama. Há mais de uma década serviços de grande porte não eram vistos na região. Eleições municipais serão realizadas em quatro meses. Deve ser coincidência. Sem preleção, o técnico da Portuguesa distribui as camisas laranja de verdes listras horizontais que não combinam muito com os calções e os meiões vermelhos. Cada conjunto do único uniforme está espalhado no chão, debaixo das árvores plantadas no lado oposto do campo. O adversário do dia é o Juventude B, que também se prepara num local próximo. A lusa do Vale vem de duas derrotas seguidas, a última delas frente ao Juventude A: um humilhante 6 a 1. Na véspera das partidas, Tonho Véio, 54, sempre fica ansioso e sonha com resultados. Dessa vez estava otimista, o vaticínio fora favorável. Sonhou com a vitória do time que fundou em 1998 após a dissolução do mítico Esperança, dos grandes Orlando e Milton, Luisinho e Osmar, Dinho e Everaldo. A equipe chegou ao heptacampeonato da Liga batendo um a um como se fosse uma máquina húngara de fazer gols, um papa-títulos da Vila Belmiro. O céu se fecha e grossos pingos d’água se precipitam sobre o campo de terra batida onde os jogadores da Portuguesa se abraçam, formando um círculo. Um padre-nosso e uma ave-maria precedem um grito de guerra apoiado por aplausos. Todos aguardam pelo início de mais uma rodada da competição disputada por 14 equipes. Ninguém espera mais pelo final da temporada do que Tonho. Lá se vão 10 anos desde o último troféu de campeão. Para ele não importa. “Não bebo, não gosto de festa. Esse time é a minha alegria, o futebol é a minha ‘baixa’, é o que me deixa de coração espantado…”, se declara, com o forte sotaque trazido de São Gonçalo dos Campos, terra natal, 108 quilômetros interior baiano adentro. O árbitro aciona o apito.

Agonia de treinador
Léo, Décio e Rogério; Paulo Bau, Valdir e Cláudio; Pereira, Vado e Adriano. O time escalado pelo homem negro, grisalho, franzino e de estatura mediana é formado na sua maioria por moradores do Vale. São eletricistas, carregadores, pedreiros, vendedores de tinta, porteiros e metalúrgicos que, durante 70 minutos, esquecem o desemprego. Os biscates são a alternativa de sobrevivência. Mesmo sem conseguir criar chances claras de gol, a Portuguesa domina as ações. O Juventude B se defende, rifando a bola, sem organizar um contra-ataque consciente. Léo, o jovem goleiro cego do olho esquerdo, é um calado semi-espectador. Veste-se quase todo de preto, involuntariamente buscando inspiração no lendário Aranha Negra. Aos 22 minutos, numa saída equivocada do zagueiro Décio, Jairo rouba a bola e toca para Isaías marcar Juventude 1 a 0. Tonho Véio agita-se na beira do campo. O semblante acusa o golpe. Rugas bem marcadas aparecem na testa. Sua voz rouca é descompensada, desprovida da modulação ideal: de perto é alta demais; a meia distância, quase inaudível. Seus trajes de diretor técnico são a representação espontânea de um Luxemburgo ao contrário: camisa de empresa de ônibus para a Operação Carnaval 2007, calça jeans de barra dobrada e sandálias havaianas verde-pálido. Ele acende o primeiro hollywood de uma série de cinco. A partida é renhida. Não há poesia ou lirismo, apenas prosa endurecida. Botinadas concretas produzem um som rascante do atrito de canela contra canela. Raça e força de homens rudes suplantam os escassos instantes de técnica, quase todos saindo dos pés de Pereira, o camisa 10 da Portuguesa. Ele distribui a bola utilizando um bom repertório de dribles, lançamentos e passes precisos. Seu único pecado é não finalizar as jogadas que inicia. É o intocável do time. Não recebe reprimenda ou orientação por parte do comandante.

Tonho tem 30 anos de experiência como carpinteiro, ofício aprendido na época em que trabalhou como servente ao chegar à capital baiana, em 1974. “Trabalho fichado em obra, mas agora estou desempregado aí porque as empresas estão chiando por causa desse negócio de idade”, justifica-se. A faixa etária dos seus jogadores situa-se entre os 23 e os 42 anos; a escolaridade é baixa, poucos concluíram o ensino médio. Dentre todos, só o dono do time conheceu os brejos, as hortas e a lama que invadia as primeiras casas do Vale das Muriçocas, construídas no final dos anos 70 à base de mutirões. Conheceu também as valas de esgoto a céu aberto que atraíam quantidade absurda de insetos, o que deu origem ao nome do lugar. Falta a favor do adversário. “Excelença, vamo olhá diretcho!”, Tonho contesta, num dos poucos momentos em que tenta intervir. Acompanhando os lances de perto, o árbitro criterioso até seria discreto se não fosse pelo moicano, o brinco e as tatuagens. Vagas orientações táticas são recebidas com indiferença. A voz rouca e débil do líder parece não chegar aos ouvidos dos 10 comandados, que lhe pediram para não xingar durante os jogos. O cessar-fogo do boca-suja começara há duas rodadas, há duas derrotas. O time ressente-se do primeiro gol e cede espaço ao Juventude, que cresce. Aos 28, numa jogada despretensiosa, Jairo domina na entrada da área e coloca de chapa, no canto. Léo, caladão, aceita. 2 a 0. Tonho não sabe quanto tempo ainda resta do primeiro tempo: ninguém da equipe trouxe relógio. Ele passa a mão no rosto, enfia o dedo no nariz, no ouvido. Acende um novo cigarro e abre um papel amarrotado que envolve as carteirinhas dos jogadores. Escolhe uma delas e dirige-se à mesa da comissão, preparando mudanças.

Fé, cigarro e boca limpa
Tonho Véio não possui religião e nem precisa dela para falar diretamente com o seu Deus. Na Muriçoca, as opções para quem busca consolo espiritual são variadas. Os templos católicos, protestantes e afro-religiosos convivem lado a lado abocanhando, cada um, de acordo com seus ritos, a fatia de fiéis provedores. Na barraquinha do Pai Helinho, localizada no trecho comercial mais ativo da Sérgio de Carvalho, folhas de descarrego são vendidas aos que necessitam recarregar as energias, mudar o rumo das coisas que estão dando errado na vida. No Terreiro de Dona Boneca, trabalhos podem ser encomendados para que caminhos sejam abertos à prosperidade. Tonho não apela para macumba. Quer vencer na bola, de preferência jogando bonito, como na época em que regia o Esperança. O padrão amarelo e preto que aniquilava os rivais como se fosse o Ypiranga dos anos 20, o Peñarol três vezes campeão do mundo. No intervalo, o técnico-carpinteiro faz três alterações de uma só vez. Alguns questionam, mas respeitam a decisão. Ele queima mais um hollywood ao mesmo tempo em que afirma não entender a atuação do time. A falha de Décio ocasiona sua substituição. “É o melhor zagueiro que nóis tem, mas vou colocá outro. Testá logo aquela miséra ali… se não prestá, não vem mais…”, revela ao apontar para André, vestido com a camisa pelo avesso. Supersticioso, grita duas vezes ao ser alertado pelo detalhe. “André, desavessa a camisa!”. No segundo tempo a Portuguesa volta a pressionar. O novo zagueiro tem boa atuação, dando mais consistência ao setor defensivo. Numa cobrança de escanteio, Bau perde um gol de cabeça com o goleiro vendido. Tonho demonstra abatimento diante do terceiro insucesso consecutivo que se esculpia. O sonho da véspera sendo descartado a cada minuto. Outro cigarro. Num contra-ataque fulminante, o mais do que encolhido Juventude encomenda o corpo. De novo Isaías. 3 a 0. Vado ainda diminui de pênalti, ensaiando uma reação tão pálida quanto o verde das sandálias do técnico. Já sob um sol que projetava sombras esquálidas, o árbitro-punk apita o final. Em três jogos, 11 gols sofridos e dois marcados. A campanha emudece o mestre de carpintaria que, cabisbaixo, recolhe e conta os pares de meiões, camisas e calções imundos de barro. Os jogadores discutem entre si, alguns trocam as velhas acusações dos atacantes e defensores; outros bebem água no gargalo de um vasilhame que passa de boca em boca, enrolado num saco plástico. Rapidamente cada um toma seu rumo. Não há resenha em dia de derrotas; nas vitórias, o consumo de cerveja é considerável. “Eu não pude xingá porque eles me proibiro e, nessas três partida que eu não xinguei, o time perdeu…”, argumenta o ex-hepta, tentando explicar a preocupante seqüência. A última das bitucas é arremessada no ar.

 

Portuguesa do Vale 009

Esperança no passado
Quando Antônio de Jesus dos Santos nasceu, no dia 16 de novembro de 1954, os torcedores brasileiros ainda se recuperavam de dois traumas em Copas do Mundo. As derrotas para o Uruguai, em 1950, e para a Hungria, em 1954, inspiraram Nelson Rodrigues a cunhar o termo “complexo de vira-latas”, ilustrando o sentimento nacional de impotência diante do estrangeiro, até então considerado superior. Entre o cronista e o carpinteiro, uma afinidade em três cores. “Lá fora eu sou Fluminense, sou São Paulo… aqui eu sou Bahia… tudo que é tricolor, eu sou”, confessa, empolgado. Pai de Antônio, Karina, Adriano e Maurício, avô de dois meninos e uma menina, ele se retrai ao tocar no assunto do quinto filho mais novo, morto em circunstâncias não reveladas. Mantendo-se à parte dos eventos promovidos pela Associação de Moradores do Vale, ele ajudou os vizinhos a construir suas casas; também ajustou as manilhas do sistema de esgoto instalado no final dos anos 80. Os vizinhos se beneficiaram da força-trabalho de Tonho Véio, mas a recíproca não é assim tão verdadeira quando se trata da sua paixão. “Se depender do pessoal da comunidade aí, nóis nunca bota um time no campeonato. Nóis bota porque tamos tendo coragem”, queixa-se. Apenas Pedro, dono de um depósito de bebidas, contribui quinzenalmente com as taxas cobradas pela Liga. A cada rodada, as equipes são obrigadas a pagar as despesas com a contratação do árbitro. Em média, cada jogador colabora com R$ 2, mas nem sempre todos dispõem da quantia. Quem tem mais, cobre a falta do outro. A casa nº 14 da Avenida Vera está a meio caminho da longa escadaria que dá acesso à  Rua Pedro Gama, na Federação. A construção é simples, como todas as outras que formam os corredores estreitos do ambiente. Na fachada, duas gaiolas são habitadas por aves desestimuladas a cantar, ao menos no turno vespertino. Sobre um ressalto, Véio ergueu sua habitação bifuncional: sede do time e moradia para esposa, filhos e netos. Nos varais improvisados na laje descoberta, o padrão laranja é estendido ao sol com os números das camisas expostos de ponta-cabeça, como o futebol que vem sendo jogado pelo time. Em casa, apenas um troféu de terceiro lugar foi mostrado com orgulho solidário pela mulher. Do “meio mundo de troféus e medalhas” da Era Esperança nada ficou por ali. Ao recordar o imbróglio envolvendo o regulamento do campeonato de 1999, ano em que a lusa substituiu o azarado time do São José, Tonho se exalta contra o que considera uma injustiça. “Nóis com 13 ponto jogamo um mata-mata contra um time que entrou pela janela com seis ponto e que tirou a gente do campeonato!”, protesta, com fôlego. A derrota por 1 a 0 ainda seria contestada anos depois junto à Liga, que, irredutível, manteve a decisão. Entre certames “oficiais” e torneios são cinco os vice-campeonatos acumulados.

A temporada 2008 foi aberta há dois meses. Até dezembro, quando o novo campeão do Vale será conhecido, grande quantidade de barro ainda deverá ser extraída das chuteiras utilizadas no campo de São Brás. Cada turno é dividido em dois grupos de sete equipes, das quais as quatro primeiras colocadas se classificam para as fases seguintes até a decisão em jogo único. A Portuguesa não avançaria caso o campeonato fosse encerrado após o 3 a 1. Ao invés de estudar estratégias ou posturas táticas que revertam o panorama do time na competição, o Véio Tonho prefere acreditar no “Imponderável de Almeida” rodrigueano. “Quando eu xingo, meu time ganha… vou voltar a xingá de novo e eles vão ganhá…”, sentencia, enquanto se despede com algumas ferramentas na mão, pronto para assentar a milionésima fechadura, a milionésima porta.
(Junho de 2008)

* Escritor, fotógrafo e estudante de Jornalismo. Prêmio Braskem de Literatura 2002 com o livro Memorial dos medíocres (Editora Casa de Palavras). Colunista da revista eletrônica Verbo21. Edita o blog  A caverna do escriba e colabora com a Soteropolitanos.

Portuguesa do Vale 001

Publicado em: ESPORTE