Silvinha

Publicado em 05/04/2007

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por Dandara Freire

Todo dia ela acorda às 5h da manhã, se maquia, transa os cabelos, se veste com bom gosto e sai para trabalhar. Ao olhar para ela, percebe-se no ato que é uma mulher de fibra, forte, batalhadora. Hoje, aos 32 anos, Sílvia Silva, a Silvinha, como é mais conhecida, é dona do bar Boneca Cobiçada, que fica em São Lázaro, um pouco antes da igrejinha na Federação. Foi com muito esforço e com muita perseverança que ela conseguiu chegar onde chegou.

Nasceu em Acupe, cidadezinha do interior, mas aos 10 anos abandonou a cidade e a escola na terceira série e veio tentar a vida na capital. Tinha apenas a roupa do corpo e um sonho na cabeça: conseguir uma vida melhor para ela e sua família. Ao chegar em Salvador, começou a trabalhar como babá em casa de famílias. Se dava bem nas casas, pois seu humor admirável conquistava qualquer patrão. Nessas casas, Silvinha aprendeu a cozinhar, o que lhe foi muito útil, pois hoje ela não gasta dinheiro com cozinheira em seu bar. “Ela mesma faz os pratos, feijoada, galinha ao molho pardo, sarapatel, todos maravilhosos”, afirmou a estudante de psicologia Júlia Lopes, que costuma ir sempre ao Boneca.

Aos 17 anos, Silvinha conseguiu um emprego no Shopping Barra, mas aos 18, engravidou. Teve seu filho Thiago aos 19 e casou com a mesma idade. Foi uma época difícil para ela, pois, por causa do menino, se viu obrigada a deixar seu tão sonhado emprego. Retornou para as casas de família e para poder dar qualidade de vida ao filho, começou a trabalhar dobrado. Hoje Thiago tem 12 anos. “Minha mãe quer que eu seja doutor, mas o que eu quero mesmo é ser o próximo fenômeno”, disse ele se referindo à Ronaldo, jogador do Real Madrid.

Em 1996, seu sogro faleceu e deixou como herança o Boneca Cobiçada para seu filho mais velho, marido de Silvinha. O bar não tinha luz, nem banheiro e era extremamente apertado. Juntos, começaram aos poucos a melhorar o Boneca Cobiçada, que tem esse nome porque quando seu sogro era vivo, cobiçava uma linda morena. Quando o bar estava finalmente pronto, Silvinha já estava com 23 anos.

Nessa época, uma velha amiga de infância estava precisando de ajuda e por ser extramente generosa, Silvinha resolveu lhe emprestar uma parte do bar. Quando a amiga já estava reerguida financeiramente, Silvinha pediu a parte do bar de volta, porque Thiago já estava grandinho e ela queria colocá-lo numa boa escola. Como resposta, sua amiga tocou fogo no bar inteiro, fazendo com que Silvinha voltasse à estaca zero. Mais uma vez, Silvinha não se deixou abater e junto com seu fiel marido, recomeçou toda a construção. Atualmente essa “amiga” é dona do bar ao lado do seu. “Se a cerveja acabar, a gente não pode beber no outro bar, Silvinha fica de mal”, contou a estudante de psicologia, Jaqueline Vitoriano.

Silvinha tem planos e sonhos ainda para o Boneca. Pretende aumentar seu espaço e quer contratar três garçons, pois o único ajudante que ela dispõe pela tarde é seu filho, que assim que chega do colégio vai direto para o bar trabalhar. Por ser uma grande mãe, quando nota que Thiago está muito cansado, ela o manda para casa dormir e se ocupa de todos os clientes sozinha, servindo mesas, cozinhando e cuidando do caixa. Como seu bar é colado com a Ufba, seus clientes mais assíduos são os alunos. Para eles, ela abre infinitas concessões, permite até mesmo que eles deixem contas acumuladas penduradas. “Eu tenho três contas penduradas, Silvinha não se grila porque me adora”, disse rindo o estudante de filosofia Rodrigo Farias.

Para Silvinha, não existe descanso. O Boneca Cobiçada funciona de domingo a domingo, incluindo feriados. O dia de Silvinha começa 5h da manhã e só acaba 3h da manhã do dia seguinte, isso quando os clientes resolvem sair mais cedo Apesar de toda essa correria, ela ainda consegue ser vaidosa. Aos sábados, o bar abre um pouco mais tarde, pois é o dia que ela vai à feira de São Joaquim comprar as mercadorias para serem estocadas. Mas é também aos sábados que Silvinha reserva uma parte do dia para ajeitar suas longas tranças e pintar as unhas, afinal, ninguém é de ferro.
(junho de 2005)

Publicado em: PERFIS